terça-feira, 18 de abril de 2017

Um ano e meio depois daquela mudança

Prestando bastante atenção, percebi que já vai fazer um ano e meio que estou em Santa Maria da Vitória. E não, não venha me dizer que passou rápido. Passou tudo no tempo certo.
Há dois anos, quando eu soube do concurso na Ufob, meus olhos brilharam com a vaga para Teorias da Comunicação, mas eu não me animava de morar tão longe do litoral onde enterraram o meu umbigo, onde ainda estão meus familiares mais amados. Eu já estava morando no sudoeste baiano e administrar essa distância já me pesava um tanto. Além do mais, eu estava adaptada em Vitória da Conquista: tinha meu grupo de amigos, tinha companheiros religiosos com quem gostava de trabalhar nas ruas, trabalhava em uma equipe bastante unida na Uesb, estudava e tinha meus pares com quem discutir, frequentava muito o aeroporto e curtia participar de cursos, festivais e seminários fora da cidade, era figurinha certa nos eventos do teatro Carlos Jeohvah. Imagina se naquele momento em que eu tinha criado coragem de pagar por um super agasalho eu iria me mudar para o semiárido? Não... Não iria.
Algumas semana depois, como boa geminiana, titubeei. Era uma vaga para professor efetivo e eu era só uma substituta na Uesb. Era uma cidade nova, em uma região exuberante, e eu adoro desbravar o desconhecido. Era só um concurso, ainda não era uma mudança de fato. Com muito sofrimento, fiz a inscrição no apagar das luzes do prazo, com muitas limitações de internet e dificuldades para scanear todos os documentos. Só não desisti porque uma amiga me disse que tudo que é importante vem com dificuldades. Mais umas semanas e a Ufob publicou a lista de inscrições homologadas. Havia uma concorrência sobre-humana para esse tipo de concurso, mas eu experimentei um sentimento completamente atípico: gana! Vontade de passar! Sentimento de capacidade de ocupar aquela vaga. Aproveitando o período de greve, estudei como se não houvesse amanhã. Comi os livros com farinha, como se diz lá na minha terra. Senti cada bloco de dez minutos passarem como se fosse uma hora de trabalho intenso. E deu certo! Passei em primeiro lugar!
Cheguei a Santa Maria da Vitória no começo de dezembro e fui muito bem acolhida pelos colegas e futuros alunos. Botei a bagunça no caminhão e parti para um ciclo novo da vida. Em Samavi, fiz mais três mudanças em um ano. Viajei pelo menos uma vez por mês ao longo do ano. Gastei quase todos os feriados queimando pestanas com a tese e consegui terminar o doutorado dentro do meu prazo. O trabalho na Ufob me promoveu profundamente. Encontrei nos alunos amizades sinceras e ótimas parcerias para projetos. Encontrei nos colegas pessoas que me desafiam nas minhas fragilidades e me reconhecem nas minhas potências. Estou mais segura, mais empreendedora, mais humilde, mais mochileira. Os amigos de outrora já me percebem como uma pessoa muito diferente daquela Aline de um ano e meio atrás, mas, mesmo assim, ainda me surpreendem com expressões do tipo “você foi pra um fim de mundo da p..., heim?” ou “não tem nada lá, né?” e ainda “quando você vai pedir transferência pra um lugar melhor?”.

Sério, gente, meu sangue ferve nessa hora. Se eu mudei, e foi pra melhor, por que esse papo de que estou em um lugar pior? Sim, eu gostaria que aqui tivesse um aeroporto, um teatro de bolso, um cinema, um bom curso de francês, mais pesquisadores da mesma área, um bom café e uma livraria bacana. Mas, você nem sabe, aqui tem outras coisas belas e ricas. Tem qualidade de vida, tem artistas de montão, tem espaço para projetos novos, tem tempo para cozinhar, tem frutas e verduras frescas na feira, tem peta e rapadura serenta. Tem silêncio e distâncias curtíssimas de um canto a outro da cidade. Tem parceiros para boa prosa, sem pressa. Tem rios e corredeiras de água cristalina cortando as cidades. Tem histórias de comunistas e resistências. Tem causos, lendas e acontecimentos inacreditáveis. Também tem amor antigo que volta, porque guarda vínculos familiares por essas bandas. Tem paz e vontade aprender e de fazer mais coisas por esse cantinho do mundo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O que eu aprendi quando quebrei o pé

A primeira coisa que eu aprendi é que os ferimentos mais graves acontecem por um triz. Fui educada: eu queria dizer que essas coisas acontecem por uma idiotice mesmo. Imagine você que eu, aos catorze anos, fui atropelada pela porta traseira de um caminhão baú, sendo arremessada a uma distância de cerca de quatro metros à minha frente, e de tudo isso apenas resultaram um arranhão no joelho, outro na mão esquerda que segurava o caderno e também um galo na parte da cabeça que foi acertada pela porta. Imagine também que, viajando de madrugada, meu tio cochilou ao volante e nós capotamos o carro em uma das curvas mais perigosas da estrada de Vitória da Conquista a Itabuna, mas desse acontecimento eu só herdei alguns hematomas espalhados pelo corpo e uma história de carona em um camburão para contar. Enfim, eu me considerava um “vaso ruim”, sabe? Mas o danado do pé quebrou fácil. Bastou um tropeço na bainha improvisada de uma calça bem folgadinha. Não me peça detalhes. Foi tudo muito rápido e idiota. Dá até vergonha de contar. Então vamos logo ao que mais eu aprendi com isso, certo?

Eu aprendi que resisto muito bem à dor. Sempre fui a “dengosa”, a “toda frágil”, a que “adoece fácil” e o tempo todo. Mas eu te digo que por dez dias todo mundo duvidava de que eu tinha fraturado o pé. É que tudo isso aconteceu em um sábado à noite, quando eu voltava de um filminho com os colegas do trabalho. Desci do carro e tropecei. Quando acordei, escrevi para uma amiga: acho que quebrei o pé. Ela respondeu: “você consegue pisar no chão? Está andando? Então não quebrou nada, não”. Mas ela foi me visitar e insistiu pra que eu chamasse um táxi para irmos à UPA, único centro de saúde que teria atendimento médico em dia de domingo aqui no interior. Eu senti que seria em vão. Não aceitei. Bati o pé que não iria. Quer dizer, não bati, não. Só fiquei de molho em casa, passando óleos essenciais no pé inchado. Ela compreendeu. E fez brigadeiro.

Passei a semana pisando com o calcanhar, usando adesivos analgésicos, saindo só de chinelo e dizendo a Deus e o mundo que aquilo foi só uma contusão e que logo ficaria boa. Ledo engano... Uma semana depois, o pé voltou a inchar. Estava rôxo. E o passo de calcanhar já estava incomodando mais do que a suposta contusão. Aceitei que precisava ajuda médica. Mas era domingo de novo. Respirei fundo. Na segunda, peguei a moto e fui à UPA. A médica repetiu aquela fala da minha amiga ali em cima. E disse que só o ortopedista poderia avaliar, com a ajuda de uma radiografia. Por sorte, aquele era o dia em que esse especialista atendia no hospital. Ele olhou a radiografia e pediu pra tocar no local da dor. Mas ele tocou nos lugares errados. Quando eu mostrei onde doía, o (infeliz do) médico cravou o polegar opositor com toda a sua suspeita e sagacidade no ponto exato e eu gritei instintivamente contra o (agressor) doutor.

Ele (bravo): está quebrado!
Eu (olhos arregalados): o quê?
Ele: faz dez dias que você está com o pé quebrado. Aproveita e vai pra perto da sua família porque serão 45 dias sem trabalhar, sem poder fazer nada.
Eu: de jeito nenhum! Não vou ficar nem por um dia sem trabalhar!

Guardei o atestado e a radiografia e saí aos pulos da sala onde o enfermeiro imobilizou minha perna com uma tala. Um rapaz que estava na fila de espera ofereceu o ombro pra me ajudar a sair do hospital. Aí expliquei que a moto estava do lado de fora, que eu não aguentaria seguir até lá daquele jeito e perguntei se ele poderia trazê-la pra mim.

Eu: você sabe ligar as motos da Suzuki? Gire a chave para a direita, depois puxe o freio esquerdo e aperte o botão de partida com o dedão direito.
Ele: mas eu tô com o dedão engressado! Vou chamar o cara que tá só com o ombro deslocado pra apertar esse tal botão aí...

E lá foram eles, tentando não esquecer a ordem dos procedimentos. E logo ele voltou, pilotando com uma mão só, todo sorridente com a praticidade daquela moto sem embreagem. Foi quando percebi que atrás de mim havia uma plateia descrente de que eu poderia pilotar com o pé daquele jeito. Tentei montar enquanto duas pessoas seguravam a moto à minha frente, mas pela direita não tinha jeito. Dei a volta por trás, aos pulos, apoiei a perna imobilizada no local seguro e acelerei. Aí a plateia virou torcida organizada! Até palmas ganhei! Virei celebridade por 15 segundos.

 Tentando permanecer fashion

Chegando em casa, ainda precisava subir as escadas. Fui de bundinha, degrau a degrau. Depois aos pulos até a cama. Cadê fôlego? Não demorei em encontrá-lo treinando andar com muletas. Ôh troço que cansa! Assim mesmo, remendada, trabalhei durante uma semana, preparei café da manhã e lanchinho da tarde e até fui à feirinha de São Félix do Coribe na sexta à noite.

Pronta para trabalhar

Sexta à noite e eu pronta pra ir à feira, quer dizer, ir ao "shopping"

Mas logo veio a terceira coisa que aprendi: sou muito arrogante. Afrontei o médico, guardei o atestado, lutei contra as limitações, mas não tinha jeito de conter o inchaço e as dores que não fosse o repouso. Eu precisava deixar o tempo cuidar do trauma naquele bendito quinto metatarso esquerdo. Fui muito bem cuidada pela amiga que me acolheu nesse período difícil. Tive comidinha preparada pela sogra dela todos os dias. Tive sua companhia para o café, prosa boa e compreensão para minha teimosia.

Mas quando precisei retornar ao médico, quem disse que consegui entrar na cota do dia? É que aqui não há estabelecimento que aceite plano de saúde e o médico do SUS sentenciou uma cota de atendimentos para aquela tarde. Eu, que não queria dar trabalho a ninguém, tive que pedir ajuda para ser atendida fora da cidade. Impossível acionar minha avó. Aos 80 anos, eu seria um fardo e uma preocupação para ela naquele estado. Então aceitei o convite para ir para o sul. Passei a noite em um ônibus leito, dez minutos em um Uber e duas horas em um avião. Do outro lado do corredor, viajava Divaldo Franco. Quanta paz esse ser humano emana, meu povo! Do aeroporto, fui para uma clínica. Atendimento rápido e simpático. O que um bom plano de saúde não faz?... Nova radiografia, ossinho resistindo a consolidar. Ganhei um gesso de verdade.

No banho, administrando o peso do gesso e a impossibilidade de caber a mim e a uma cadeira no banheiro de um apartamento, acabei escorregando e levando uma grande uma queda. Levantei, me vesti, fiz cara de tudo bem, mas bastou um espirro para sentir que a costela estava com problemas. Tentando disfarçar, soltei uma gargalhada e foi aí que a coisa ficou feia. Me calei a esse respeito por uns dias, mas foi preciso fazer nova visita à clínica, nova radiografia e então usar uma faixa atada ao peito. Havia uma mancha cinza enorme no pulmão. Tinha que repousar e tomar anti-inflamatórios. Céus! Eu era praticamente uma múmia viva!

Descobri que repousar cansa. Fiquei estressada. Mas teve almoço de domingo em família. E teve a chance de ver uma turma legal andar a cavalo. E acabei em cima do cavalo também. Explico: era um local onde aprendizes e profissionais treinavam, então até crianças montavam nos seus cavalos no redondel enquanto os laçadores treinavam na pista (não sei como se chama o local de treino de laço). E lá fui eu, temendo a altura, mas adorando o balanço suave do cavalo e o ventinho no rosto. Foi só uma voltinha de leve, com uma pessoa mais experiente segurando a rédea. Acho que é esse o nome. Fiz carinhos no cavalo e ele gostou de mim. Sempre que “Boneco” voltava ao local onde eu estava sentada, se aproximava querendo denguinho. E eu já não gosto, né? Rsrsrsrs

Medrosa

Feliz

Enfim, aprendi que estar convalescente é uma forma que Deus encontra pra nos ensinar como é bom estar em família. Fui muito mimada por todos. Me senti muito amada por todos. E também percebi na minha limitação uma forma de estimular a gentileza nas pessoas: ganhei visitas e chocolates e muitos pães caseiros (amo!), ganhei jantar especial dos vizinhos, recebi tratamento cuidadoso da empresa de ônibus, do motorista do Uber e da cia aérea durante a viagem, tive preferência quando precisei atravessar a rua com as muletas para ir ao médico, tive direito a cadeira motorizada no supermercado (essa parte foi incrível de boa!).

Desculpa, Chloé, mas esse meme é tão legal que fiz minha versão cadeirante


E entendi que não sou nem um pouco autossuficiente. Eu, que saí de casa tão cedo e que há tempos moro sozinha e longe da família, precisei me deixar ser cuidada. Percebi que, mesmo nos períodos em que dividi a casa com amigas ou colegas, sempre coloquei a autonomia à frente de todas as relações. Aquele era o momento de me adaptar em todos os sentidos a uma nova condição. Precisei me recolher para compreender o que a vida queria me ensinar.





Então aprendi que não dá pra viver sem esse tipo de afeto. É um afeto que brota do trabalho que a gente dá ou dedica ao outro. Isso é ser família. O problema é que fiquei mal acostumada. É muito bom quando alguém cozinha pra você sem ter dinheiro envolvido. Quando alguém lava (e lê o que está escrito nas) suas camisetas porque você não deve se esforçar sequer para cuidar das coisas cotidianas. Quando alguém abre a porta do carro pra você e põe a mão no seu coração se precisar frear o carro repentinamente. Foi lindo descobrir que as pessoas se sentem felizes por terem a simples oportunidade de ajudar ou agradar alguém.

Estou grata ao universo por tudo que aconteceu em agosto de 2016. Deu desgosto na hora da dor, mas a “primavera” da compreensão chegou em muito boa hora. Agora quero fazer de tudo para ficar mais perto da família. Retiro a autonomia do centro de minha vida e nele coloco em definitivo esse amor que demorei tanto a conhecer. Quero amar em abundância e me permitir ser amada todos os dias.

E eu torço para que você, que leu tudo isso, possa saber dessa “verdade do espírito” sem ter que tropeçar na vida como eu. Que o amor esteja em seu coração e frutifique em abundância!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Constelei


Deixa eu contar pra vocês uma experiência sem precedentes que vivi nesse fim de semana de 15 e 16 de outubro. Mas se prepare pra um texto que me expõe um pouco mais, tá? É que não posso falar sobre a Contelação familiar sem explicar o tamanho do problema e do benefício.

A primeira vez que ouvi falar em Constelação familiar, eu nem dei a mínima. Foi numa seção de acupuntura e o profissional desabafou os porquês de proibir essa experiência no espaço que ele e a esposa criaram. Como ele só relatou os riscos, então eu sequer registrei a possibilidade de algum dia procurar essa terapia. Mas não demorou pra outra pessoa em quem eu super confio tocar nesse assunto. Ela me disse: “É maravilhoso. Você conta o acontecimento que te marcou, voluntários representam o fato e aí... vai constelando... Todos os envolvidos no trauma vão sentir os efeitos, mesmo à distância, mesmo sem saber”. Ouvi atenta, curiosa até, mas confesso que ainda não conseguia botar fé naquilo. Então eu iria contar sobre os ocorridos dolorosos de família pra um grupo e pessoas aleatórias fariam um trabalho cênico e aí meus traumas se dissolveriam no tempo? Foi difícil de me imaginar nesse trabalho.

Mas eu não me esqueci daquele conselho. Na segunda oportunidade que tive de visitar São Paulo, coloquei essa busca na lista. E foi de surpresa que essa viagem aconteceu: eu não poderia dar aulas na pós da Ufob por conta do pé convalescente, então poderia fazer algo mais suave durante as semanas seguintes, que seriam de recesso acadêmico. Escolhi participar de um curso de efeitos visuais com um grande profissional de Hollywood, à noite; os dias seriam dedicados às correções da tese e à fisioterapia. Me restava um fim de semana livre depois do curso, pois as passagens aéreas ficam mais em conta nas segundas-feiras. E nesse fim de semana haveria um workshop de Constelação familiar. Tudo conspirou pra dar certo. Quase tudo. Demorei pra confirmar, afinal essas experiências muito profundas assustam um pouco. O jeito foi entrar na lista de espera. E na véspera, uma pessoa desistiu. Aí, sim, foi conspiração astral!

Cheguei ao Instituto Mario Koziner em cima da hora e logo que entrei no salão meu coração disparou, me emocionei e senti muita vontade de chorar. Assim mesmo, do nada, eu queria chorar. Só passou quando Mário entrou no salão e se posicionou na roda.  Ele é argentino, médico psiquiatra. Quando todos silenciaram, ele apresentou o trabalho: todos somos filhos, então estamos integrados a um sistema. Podemos observar esse sistema como se fosse um tecido. Na trama do tecido, os fios podem estar em harmonia, mas também podem sofrer choques que levam a emaranhados, resultando em desarmonia. O trabalho de Constelação familiar, criado pelo alemão Bert Hellinger, parte do princípio de que todas as relações são amor em movimento, tudo que flui é amor. Esse amor pode levar à felicidade, mas também pode levar à dor. Corrigir o fluxo que, por conta de algum emaranhado, levou a pessoa à dor é uma das potências da Constelação familiar. Então tudo depende de saber por onde o amor flui e assim buscar a harmonia.

Mario também explicou que a Constelação familiar trabalha em três ordens. Existe a ordem do pertencimento, que reza que todos pertencemos a algum sistema. Se há alguma exclusão, por exemplo, o sistema se mostra em desarmonia. É necessário incluir o que está de fora para que o amor possa fluir bem. Existe a ordem da hierarquia, na qual cada membro do sistema tem sua própria carga. Se algum membro transmite sua carga para outro, ele se enfraquece e o outro padece. Se essa carga é devolvida à origem, o membro se fortalece e o outro recebe a força que precisa para se alinhar ao sistema e seguir rumo às suas buscas na vida. Esta é também a terceira ordem, a ordem do dar e receber. Nas famílias, tem que haver circularidade de energias e isso se refere à carga de cada um. É necessário devolver a carga e receber a força, deixar com o outro o que é do outro e seguirmos apenas com o que nos pertence, pois é assim que superamos o emaranhado e seguirmos para o que desejamos. Ter a força familiar é estar livre.

Então eu fiquei atenta, copiei tudinho e pedi muito a Deus que me permitisse encontrar redenção.

Eu nunca tinha assistido a nada tão emocionante na minha vida. A pessoa relata sucintamente o que a aflige e alguns voluntários entram em conexão com o constelador (o paciente, digamos assim). As energias guiam os representantes e o sistema se abre, mostra a raiz do problema, ajuda a o constelador a compreender cada parte envolvida e pode até apresentar uma imagem com a solução do problema. E tem perdão, tem reconciliação, tem paz e leveza. Me identifiquei com muitos casos anteriores ao meu e já sentia que alguns nós internos, nós emocionais, se desfaziam ali mesmo. Sentia muita emoção. E muita fome. Esse negócio de passar da dor à paz dá muita fome. Me explicaram que é porque consome muita energia. Mas o lanche garantia a reposição J

Ao final da tarde do primeiro dia, chegou a minha vez de constelar. Fui certeira ao ponto. Quero constelar o problema do abandono na minha vida. O abandono paterno, materno, os muitos abandonos afetivos e o abandono reverso (eu desistia dos projetos, dos empregos, das amizades e das cidades antes que elas desistissem de mim). Quero conseguir amar as pessoas que não conseguiram participar de minha caminhada e deixar de cultivar espaços para o abandono na minha vida. Enfim, meu propósito era me sentir, afinal, integrada a um sistema. Para isso, eu precisava romper as barreiras da superficialidade nas relações e encontrar recursos para construir relações profundas, duradouras. Era só isso que eu queria.

Mas isso é muita coisa pra uma constelação só. Tive que me contentar com o recorte da questão materna. E olhe que foi coisa, viu? Eu não podia imaginar que a raiz desse problema estaria em incontáveis gerações anteriores de mulheres da minha família. Todas, em alguma medida, de maneiras diferentes, foram impedidas de amar suas descendentes. A explicação é que, em algum momento, duas mulheres da família entraram em conflito e a carga dessa rejeição foi transmitida para as mulheres que vieram depois. De maneira inconsciente, esse peso se manifestava: uma filha sentia medo da mãe, a outra sentia indiferença, a outra sentia rejeição. Quando o arquétipo da origem do problema se reconciliou e a carga negativa foi devolvida à fonte do problema, todas as demais gerações puderam se libertar. Fui considerada como uma pessoa de coragem por levar paz e força a todas as minhas ancestrais. Com a força delas, pude caminhar para a profundidade, me sentindo, nas palavras de meu representante, “pronta para a vida”.

Eu não tenho palavras para descrever o quanto me emocionei com essa experiência. Eu saí do instituto me sentindo como alguém que renasceu para o mundo. Fui para o centro da cidade e, para minha enorme surpresa, me peguei caminhando pela Avenida Paulista de um jeito diferente. Tinha plena consciência de meus pés, de meu quadril, tinha os ombros leves e olhava nos olhos das outras pessoas. Eu não tinha na memória o registro de como era andar de cabeça erguida. E te digo que isso é efeito do grande orgulho que agora sinto de minhas antepassadas. Nosso clã é bonito e está em harmonia.

Acredito que até o problema de menopausa precoce possa ser revertido. Não rejeitamos mais nossa descendência. Temos força e amor para transmitir aos filhos que virão. E estou, sim, preparada para viver em família: a que já tenho e a que desejo construir.

E se existe um conselho que eu sempre vou oferecer a quem me confiar conflitos familiares é que busque pela experiência da Constelação familiar. Porque para mim, foi como um divisor de tempos: a.C. e d.C., ou seja, antes da Constelação e depois da Constelação.


domingo, 10 de julho de 2016

A pegada do planeta

Foi na última quinta-feira, dia 7 de julho, que estive admirando os resultados das pesquisas sobre sustentabilidade na 68ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na querida Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro. Após apresentar meu pôster para pessoas de diferentes formações e interesses, me permiti passear entre os stands e conhecer mais sobre astronomia, sementes para o semiárido multiplicadas em laboratório, hortas e composteiras domésticas, robôs garis para o fundo do mar e... a pegada do planeta. Não sei bem se era esse o nome, pois o galpão estava cheio de gente pra mostrar novidades e pra conhecer coisas novas, mas foi esse o nome que eu senti e está valendo pra mim que se chame assim. Muito me surpreendeu o convite para realizar o tal teste. Sem saber do que se tratava, mas sob o efeito da gentileza da jovem pesquisadora que me convidou, segui até o stand, me sentei frente a um computador e comecei (sem muita vontade, confesso) a responder o questionário. Havia perguntas do tipo “quantas vezes por semana você consome carne?” ou “quantas horas você viaja de avião por ano?”, e ainda “com que frequência você usa o transporte público?” e também “por quais motivos você troca seus aparelhos eletrônicos?”. O resultado para o meu teste foi “Parabéns! Seu estilo de vida consumiria apenas um planeta por ano”.

A jovem sorriu com muita alegria porque aquela foi a primeira vez, em cinco dias de evento, que o resultado foi “apenas um” para algum ser humano. Eu sorri de um jeito amarelo, só para não frustrar a garota, mas eu confesso que me senti bastante envergonhada e preocupada. Um planeta por ano ainda é muito a ser “consumido” por uma só pessoa, minha gente!Saí do salão toda cabisbaixa, pensando em um jeito de amenizar esse quadro. 

Fui buscar recursos lá na infância. Eu nasci no dia mundial do meio ambiente e as questões ambientais sempre foram de meu interesse. Eu já rejeitava a carne vermelha desde pequenina e aprendi com vó a importância de priorizar o “feito em casa” e também de cultivar plantinhas no quintal (no meu caso, usava a janela do quarto ou a sacada, pois morei muito tempo em apartamentos). Ela sempre gostou de flores e ervas, mas minha mão só “sabe” cuidar de temperos e verdurinhas. Com ela também aprendi a só tomar “remédio de farmácia” em casos urgentes. Tomo chás todos os dias, preparo minha própria refeição com produtos da feira, consumo frutas em lugar de biscoitos recheados, priorizo a prevenção a ter que realizar tratamentos de saúde. Aproveito a luz do sol ao máximo na iluminação da casa e também evito o desperdício a todo custo.

Depois de adulta, com as redes sociais e com as amigas, descobri que posso reduzir ainda mais o consumo de produtos industrializados, derivados do petróleo, nocivos à natureza e à minha própria saúde. De 2013 para cá, cada semestre foi tempo de experimentação de práticas diversas de auto cura e redução de danos ao meio ambiente. Assim, reduzi o consumo de leite e frango a quase zero. Substitui os temperos industrializados pelas especiarias segundo a Ayurveda. Conheci e adotei “para todo o sempre, amém” os óleos essenciais, seja para fortalecer o corpo físico, seja para ajudar o equilíbrio emocional ou mesmo apenas como repelente. Abandonei os absorventes íntimos e praticamente não uso mais shampoos e desodorantes que não sejam preparados em casa.

Não se trata de uma “ditadura natureba”, como pode ocorrer a um ou outro leitor. Eu sou livre para usar qualquer produto, mas eu sei o quanto é importante e o quanto posso carregar de amor as minhas pequenas “bruxarias” cotidianas. Além disso, experimentar essas receitas aumenta em mim o sentimento de sororidade, o laço que une a todas as mulheres em irmandade, que fortalece nossos vínculos de afeto e nossos conhecimentos ancestrais.

Hoje em dia, acho que o universo me encaminha naturalmente, de tempos em tempos, para outros setores da rotina que precisam ser repensados. Faz uma semana que me mudei para uma casa que fica mais perto do trabalho. Queria muito reduzir o uso da moto e deu muito certo. Mas, na primeira noite na casa nova, descobri um vazamento na pia da cozinha e, muito chateada, adotei uma bacia na cuba. No dia seguinte, já estava pegando gosto por reduzir a quantidade de detergente e dispensar aquela água nas plantas. Seria muita água a seguir pelo ralo, mas é bem pouca água a voltar para terra e, consequentemente, para a atmosfera, em um ciclo natural.

Inspirada nessa pegada, já consigo reutilizar toda a água da máquina de lavar na limpeza da moto, da bike, do banheiro e até no uso do sanitário. Agora quero trocar de vez os desinfetantes industrializados pelos chás fungicidas e bactericidas, o sabão em pó industrial pelo caseiro, o filtro solar de mercado pelo natural. Antes de comprar algum utensílio, vou verificar se posso construí-lo, reciclando embalagens ou experimentando o mesmo princípio em outros materiais. Vou construir um minhocário para transformar o lixo seco (como o pó de café, os saquinhos e ervas usados em chás, as cascas de frutas e verduras) em húmus para as plantas. E estarei sempre atenta a novas maneiras de reduzir, de reaproveitar, de valorizar o “feito por mim”.

Agradeço diariamente às pessoas que disponibilizam essas alternativas e manuais na internet. Não, não me sinto uma formiguinha a apagar incêndio. Estou certa de que não estou só a tentar fazer o que é certo. E estou certa também de que quem ri de mim não se esquecerá de que alguém, em algum lugar, tentou fazer as coisas de um jeito diferente daquele que manda o capitalismo. Em seu tempo, essa pessoa se lembrará do exemplo que apenas passei adiante.

Quem sabe assim o planeta seja suficiente para mais pessoas, como eu e você, por mais tempo.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O ano mais importante da vida. Ou não!

Em 2011, decidi voltar para a Bahia. Voltei para o lar em que cresci e me iniciei com chave de ouro na docência superior. Eu acreditava que aquele seria o ano mais importante da minha vida.
Mas veio 2012, ano em que conheci meu pai e ajudei a fundar uma casa espírita. Estava certa de que aquele foi o melhor e o mais difícil ano de toda a minha vida.

Em 2013, ingressei no doutorado. Mudei mais uma vez de cidade, encontrei uma prima que é um presente de Deus em minha vida e recebi as chaves de meu apartamento. Ah, a casa própria! Pena que eu não morava mais em Itabuna. Me disseram que, sem dúvida, aquele era o ano mais importante da minha vida e eu não discuti.

Mas 2014, sim, foi um grande ano. Superei um início de depressão usando apenas a ayurveda e alguns alimentos germinados. Às vésperas de uma seleção importante, quase entregando os pontos, recebi o incentivo mais poético de toda a minha vida: “não quero saber se você está mal: o trabalho vai te fazer bem. Também não quero saber se você está concorrendo com a buceta das galáxias ou com a pica do sabre de luz: você é boa! Sente a bunda na cadeira e comece a estudar agora. Você vai fazer essa prova, sim!”. Aquilo foi tão impactante... Saber que alguém tão lúcido, culto e do bem acreditava tanto em mim foi incrível! Com apenas uma semana de estudo, passei no concurso para professora substituta no curso de cinema da Uesb com nota 9,2! E como foi importante, meu Deus! Estudei muito, escrevi meu primeiro capítulo da tese e, com o dindin que entrou, fiz meu primeiro mochilão fora do país. “Solita”! Foi um ano incrível!

Mas eu nem te conto que foi em 2015 que eu encarei a necessidade da terapia. Autodescobrimento é uma urgência. Viver com leveza é uma necessidade. Compreender o que ainda me impedia de ser o que sou em plenitude é libertador. Estar ciente de que não preciso provar nada pra ninguém, embora seja um tanto clichê, é tão óbvio que passa despercebido da gente. O ruim é que essa jornada por dentro da nossa personalidade não tem fim. A vida nos surpreende quando compreendemos que é hora de mudar e, numa mescla de superação e descoberta de novos desejos, conseguimos dar novas “ordens” ao universo. Foi assim que aprendi a me sentir entre pares com meus colegas de trabalho e de pesquisa; me senti liberta para amar; me senti mais do que pronta para perdoar e adotar o lema “vida que segue”. Reconheci que o que estudei tem valor e fui aprovada em um concurso para professora efetiva. E tome mais mudança! Dessa vez, mudei de cidade, de região, de disciplina de trabalho, de paisagem afetiva.

2016 está sendo um ano de desafios agigantados. Por exemplo, aprender a não superdimensionar os desafios. Aliás, esse é um desafio pra lá de velho... Saber me cuidar nos meus períodos de fragilidade. Abrir-me para a dor das distâncias e rompimentos inesperados, afinal, a gente tem que viver o luto e não guardá-lo sob o tapete. Saber acolher, saber romper. Abrir-me também aos afetos cotidianos, aprender a abraçar, aprender a receber ajuda, aprender a cumprimentar e despedir suavemente. Não sou autossuficiente, afinal. Reunir energias para realizar minhas ideias e projetos (até então, só colaborava e incentivava os projetos de amigos) e isso quer dizer que hoje em dia eu acredito verdadeiramente em minhas ideias! Abrir-me para a cidade grande e tudo o que ela tem de potência. Reabrir-me para amigos de quem descobri imperfeições, afinal, também sou imperfeita, portanto não posso/devo romper em definitivo sem compreender que estou entre diferentes. E sempre estarei.

Enfim, até aqui, descobri que não importa saber qual ano foi mais importante da minha vida. Esse tal ano mais importante nunca vai chegar porque em todos os anos eu vou querer aprender mais. Se eu sentir que sei muito, algo estará errado comigo, porque hoje reconheço que sempre haverá novas conquistas no aguardo de minha mobilização. Fazer da vida uma grande sucessão de anos importantes é que deve ser o segredo de uma vida boa. E destaco isso porque sinto que viver é ter histórias pra contar, aprendizados a adquirir e depois dividir. É saber estar junto e também, como cantou Gilberto Gil, é saber “só ser”.

domingo, 3 de abril de 2016

Ela fez 80 anos!

Era inverno, em 2015. Era dia de São João e eu estava tirando uma soneca. Ela veio de mansinho e, encostada na porta disse: "Aline, vi os passarinhos fazendo festa no quintal: tem goiaba madura no pé! Vamos lá?"
Eu me levantei e joguei uma água no rosto. Quando vi, ela já estava voltando com as mãos cheias de goiabas. Vó sempre foi ágil e esperta. Fui ajudar a colher as que estavam nos galhos mais altos. Foi quando fiz esse clique. Vó, olha a foto! Aonde? Aqui, ó!
Hoje ela completa 80 anos de vida! E eu nem sei como agradecer por tanta coisa boa que ela ofereceu e oferece diariamente. Dizer parabéns é pouco, mas ela recebe como muito, pois está sempre em estado de contentamento com a vida. Aliás, a vida é sua maior mestre: ela aprende enquanto ouve a natureza, entende dos sentimentos humanos a partir dos passarinhos, compreende os fenômenos do espírito cuidando das flores.
 Em verdade, o presente de hoje é todo meu, afinal pude aprender a ser gente com uma pessoa tão especial.
Felicidades, vó! Vida longa e cheia de sabedoria para dividir com a gente!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pequena retrospectiva de grandes aprendizados

Finais de ano tem suas tradições: uns viajam, outros recordam.
É verdade que 2015 durou quase um século e que dezembro não quer virar passado, mas quem sabe com todos esses ritos conseguirei fazer valer a transição e finalmente me sentir diante do novo.

Quando 2015 começou, eu estava na metade de mochilão. Me restavam ama semana na Bolívia, outra semana no Peru, outra semana no Acre.
No lago Titicaca, enchi os olhos de beleza e paz. Nas Isla del Sol, percorri a trilha sagrada dos Incas (10 kms). No Peru, bloquearam meus cartões e tive que me virar para conseguir seguir em frente. E segui em frente. Em Arequipa, me apaixonei. Em Cusco aprendi e recuar, a desistir. Na fronteira com o Acre, conheci três pessoas lindas e iluminadas - um estudante de cinema de coração muito puro e alegre e um casal que alimenta minha esperança de ainda viver uma relação de muito amor e companheirismo. Viva as travessias!

Me matriculei nos cursos de inglês e francês. Desafio de quase toda uma vida... Ainda não posso comemorar progressos significativos.

Conheci Belém. Recebi provocações importantíssimas para o deslanchar da escrita da tese.

Comprei uma moto e ocupei meu lugar no trânsito. Saí muito mais à noite e aproveitei cursos, palestras, encontros, fogueiras no quintal e teatro ;)

Aceitei a psicoterapia. Todo mundo merece!

A terapia espiritual me ajudou a pedir perdão. Perdoei também.

Comecei de fato a escrever a tese.

Abracei o compromisso com a Pedagogia Waldorf.

Assisti A história da eternidade e Últimas conversas no Cine Glauber Rocha.

Aproveitei ao máximo o Festival Internacional de Cinema, em Salvador. Mas o mais lindo de tudo foi rever amigas dos tempos da graduação e sentir toda a acolhida afetuosa de quem não deixa o tempo e a distância fragilizar as relações.

Passei meu aniversário no maior baixo astral, mas consegui juntar o meu povo dois dias depois, em plena segunda-feira, para uma comemoração fora de data.

Fiz curso de aquarela. Fiz curso de trabalhos manuais (Waldorf).

Conheci Cachoeira e fiz oficina de documentário urgente.

Passei em concurso público federal. Foi lindo, mas conheci o completo esgotamento.

Desisti de prestar outro concurso público. Esse foi mesmo um ano para aprender o momento de desistir ou de respeitar meus limites.

Comi doces sem medo de ser feliz. Vi minha glicemia ir às alturas. Vi a danada baixar um mês depois.

Fiz muitos bolos e assisti muitos filmes nos meus sábados taciturnos e reflexivos em Conquista.

Me diverti horrores no show da Baiana System. Assisti o show de Nação Zumbi, apesar da TPM.

Voltei a Minas e revisitei quase todos os lugares que amo: Palácio das artes, Parque municipal, Museu de artes e ofícios, Mercado central, Praça da liberdade e CCBB, tudo isso com uma virada cultural no meio. Foi como perdoar, amar de novo.

Ganhei seis quilos e perdi definitivamente o manequim 38.

Contei histórias.

Amei com leveza e com profundidade. Sofri. Sigo em frente.

Conheci Itabirito. Conheci Búzios. Conheci Lauro de Freitas.

Fui a formaturas e tive os olhos cheios de lágrimas de orgulho. Fui PATRONESSE de turma muito amada!

Conheci o Tarot egípcio. Conheci a Bênção do útero. Me curei com Danças circulares sagradas dos povos.

Comecei o ano trabalhando como professora do curso de cinema; termino como professora do curso de publicidade e propaganda.

Me mudei de cidade em tempo recorde. Desmontei e montei todos os móveis "solita", mais uma vez.

Curti mais a família e as prosas sem pressa com amigas de longa data.

Enfim, chego a dezembro desejando que 2016 seja um ano de muita escrita e muita coragem, muitos filmes, músicas e viagens. Muito amor, mas daquele pra valer, sabe? Saúde, tranquilidade. Mais amizades, mais parcerias, mais trabalho, mais histórias para contar.

Feliz ano novo!



Ah, termino o ano parcialmente loira. Quem diria?

quinta-feira, 21 de maio de 2015

#QueridaEuMesma Da Aline de (quase) 33 anos para a Aline de 23



Você não precisa se sentir inadequada porque não é expansiva.

Você não precisa ser expansiva.

Você vai gostar de fazer amizades e conversar sem pressa mesmo sendo tímida e introspectiva.

Você vai conhecer um certo Fritz que vai te contar que suas referências de sucesso também erram muitas vezes na vida.

Perdoe. Perdoe mais e mais rápido. Ah, perdoar é deixar com o outro o que é do outro e seguir apenas com o que é seu, ok?

As amigas que você tem nessa fase continuarão sendo as suas melhores amigas até hoje.

Continue dedicando quatro horas por dia para estudar. Só relaxe um dia por semana. SÓ UM DIA POR SEMANA.

Você vai continuar recebendo alguns convites para casamentos, formaturas e aniversários e você estava super certa de não se obrigar a usar salto alto ou cabelo esticado nessas ocasiões.

Você vai encontrar quem corte seu cabelo com amor e respeito aos seus cachos.

Larga a mão de ser medrosa, menina! Seus rompantes de coragem ajudarão muita gente pelo mundo afora.

Você vai encontrar na sala de aula um lugar ótimo para semear suas micro revoluções.

Continue gastando seu tempo livre com cursos de artes. Não se cobre ser uma artista, nem no começo, nem ao final. Aliás, não se cobre nada.

Não se preocupe com o ótimo se somente o bom for possível no momento. É pelo bom que se chega ao ótimo. Basta não se satisfazer apenas com o bom.

Continue assistindo muitos filmes. E continue fazendo da sua necessidade de assistir mais filmes um bom pretexto para visitar seus amigos.

Não seja tão resistente com os estudos de inglês. Vai te fazer muita falta no seu primeiro mochilão fora do país.

Ah, você vai fazer um grande mochilão fora do país!

Continue gastando parte do dinheiro que você guarda com pequenas viagens de fins de semana. Nunca perca a oportunidade de fazer pequenas viagens de fim de semana.

Continue guardando um dinheirinho todo mês.

Você vai ter um apezinho na cidade onde você cresceu e vai plantar as árvores que sempre quis bem de frente pra varanda dele. Talvez você só vá morar lá quando as árvores forem adultas, mas isso não será um problema: o apê e as árvores serão úteis para muitas pessoas bacanas.

Tente fazer yoga todas as manhãs.

Seu casamento vai acabar. Você não vai sofrer tanto assim por isso, mas vai continuar acreditando no casamento.

Você vai conhecer rapazes ciumentos. Por favor, vire e vá embora.

Você vai passar um (longo) tempo sozinha. Não se aflija. Aproveite para continuar vendo filmes, estudando, se envolvendo em trabalhos sociais, viajando, visitando seus amigos.

Você corre o risco de agir por carência. Aja, mas NÃO FAÇA BOBAGENS.

É bom estabelecer critérios na hora de escolher o companheiro: idade, ocupação, afinidades e, o mais importante, a capacidade de te ouvir quando você está falando sério. Pare agora de se deixar ser escolhida!

É verdade que os cabeludos, barbudos, músicos e incompreendidos são os mais atraentes, mas não são os únicos atraentes no mundo.

Não tema fazer terapia. Só vai te fazer bem.

Você vai conhecer seu pai. Sua família paterna é enorme!

Beba mais água, pare de espremer espinhas e use filtro solar.

Aprenda a gostar da noite. Melhor dizendo, saia mais, pelo amor de Deus!

Aprenda a permanecer no presente. Nostalgia tem limite; ansiedade só vale nos cinco minutos que antecedem algum compromisso.

Continue se esforçando para fazer amizade com a leveza.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Diários de mochilagem: Santiago!

Cheguei a Santiago em 13 de dezembro de 2014. Era para ficar apenas 13 horas na cidade: o tempo de uma conexão entre voos para La Paz, Bolívia. Comentei com um amigo no trabalho que queria sair do aeroporto, conhecer a cidade e voltar insone para a conexão, mas ele me falou de um amigo ucraniano que estudou com ele na escola de cinema de Cuba, que falava português, que era muito boa gente, que trabalha como médico e diretor de cinema, que poderia me hospedar, inclusive por mais dias... Como boa geminiana, fiquei dias e dias em dúvida sobre ficar no Chile ou seguir viagem. Na noite em que cheguei, paguei quase 200 reais na corrida do táxi e pensei: eu que não fico aqui! Antônio me recebeu com uma reverência budista e um sorriso hospitaleiro e me julgou triste, mas era só efeito do susto do custo do táxi mesmo.
De cara descobri que meu espanhol ali não servia pra nada, mas Antônio achava bonito o português e mandava muito bem na minha língua materna. Até o hino do Bahia o moço sabia cantar. Na manhã seguinte, acordei e fui direto na mochila, pegar o bilhete da conexão, mas bastou levantar e ver essa paisagem pela janela para mudar de ideia.


Abri a porta do quarto e Antônio já tinha posto a mesa para o café. Gentilmente se dispôs a me levar a um passeio. Na avenida Independência, ao lado do prédio onde ele mora, havia uma feira de artesanatos e preparavam um carnaval cultural. Seguimos a pé, pela feira. Ele não sabia, mas ali a cidade terminava de me conquistar. Guindas e cerejas frescas coloriram meu semblante logo na entrada da feira. Guinda é uma frutinha vermelha vibrante, quase cor de vinho. Perguntei ao vendedor que frutinha era aquela. Antônio gostou da palavra “frutinha”. Eu gostei da simpatia do vendedor. Ele me disse: prove, são guindas, muito doces! Ao ver meu sorriso de aprovação, perguntou: quieres “médio”? Médio é a unidade de medida mais comum na feira e corresponde a duas vezes o volume que cabe nas duas mãos juntas de um adulto. Adentramos de fato à feira. As frutas e verduras que conheço (e amo) chegam a ser três ou quatro vezes maiores aqui. Solos mais ricos... Mas me impressionou ver uma abóbora maior do que duas melancias empilhadas!



Seguimos para o Cerro San Cristoban. Na rua que separa a feira do cerro há muitas igrejas. A de Santa Filomena é lindíssima, mas também há uma igreja ortodoxa, que dá um colorido árabe aos ritos católicos; há uma igreja coreana, bem alegre, cheia de crianças brincando bem felizes e outra japonesa. Na mesma avenida cheia de igrejas, há muitos grafites. São incrivelmente lindos! Praticamente todos faziam referências à natureza e à figura humana, um clima meio pagão que super compôs o astral religioso da avenida.

Igreja de Santa Filomena. Antonio e o que sobrou do mote com huesillos. Já explico o que é.

Dentro da igreja

Catedral ortodoxa

Igreja coreana


Grafites lindos, novinhos em folha!



Ainda na rua, me chamou atenção uma barraquinha. Vendia o famoso mote com huesillos: suco cor de caramelo com trigo e um pêssego em calda. É super doce, aliás, nossos hermanos adoram coisas beeem docinhas. É uma bebida refrescante e alimenta que é uma beleza.
Finalmente chegamos ao cerro. Logo me impressionei com a quantidade de ciclistas, inclusive com crianças, a subir da montanha do parque. O cerro é um dos pontos mais altos da cidade. Se pode vê-la praticamente de qualquer parte da cidade. Antonio e eu, que não somos atletas, subimos a montanha de funicular, que é como o plano inclinado de Salvador, um elevador na diagonal com vista panorâmica. Seu funcionamento é bem simples: são dois bondes ligados por um cabo de força e, enquanto um sobe, o outro desce. A subida foi emocionante! Conseguimos ficar no melhor ponto do funicular e aproveitamos bastante a paisagem. De repente ele para, e eu, extasiada com tamanha vista, achei que fosse o fim. Era só a parada para quem quer visitar o zoológico. Ainda tinha muito mais vista pela frente. O funicular nos deixou no alto do cerro, onde havia muitos jovens, ciclistas, casais e vendedores de comida e roupas. Mais uma vez, achei que tinha visto tudo. Antônio me conduziu a um ponto ainda mais alto, depois de passar por uma igreja. De lá ele apontou o rio Mapocho, que corta a cidade ao meio, exatamente entre as cordilheiras da Costa e a dos Andes, e contou sobre os índios Mapuche e a formação da cidade. Eu não vou contar essa história aqui simplesmente porque minha memória não é mais a mesma... Ainda piora com ventania. O que realmente ficou guardado na memória foi a certeza de nunca ter dado aos meus olhos uma paisagem de tamanha amplitude. Foi como um super hiper grande plano geral enquadrado pelo meu campo visual: maior ele fosse, mais informação havia para a mente ver.





Vista da parte mais alta do mirante do cerro San Cristoban

Descemos com o mesmo bilhete do funicular. Paramos em um restaurante bem simpático e fomos atendidos por garçons bem divertidos. O maior marketing deles é apresentar ao turista algum dentre eles que conheça o país do visitante. Mas até que o cliente escolha almoçar ali eles fazem muito barulho, valendo gritos, bateção de cadeira de ferro no chão e muito mais. No cardápio, me chamou atenção a opção “pobre” depois das carnes. Havia pollo pobre, bife pobre... Perguntei do que se tratava e o garçon respondeu: pobre é sem graça. Eu ri, pensando que fosse sem tempero, depois lembrei que grasa é gordura, então pobre é light e foi assim que o frango pobre perdeu totalmente a graça...
Comemos um pedaço pra lá de generoso de salmão, acompanhado de camarões e mexilhões enormes, cobertos por um molho branco. Acho que os chilenos precisam fazer mais amizade com as especiarias. O molho só tinha gosto de manteiga e farinha de trigo, separados, assim, meio cru, meio estranho. Mas os mariscos de mares profundos são show de bola! Pedi arroz para acompanhar, mas os hermanos gostam mais de batatas, fritas ou em purê. Achei massa esse negócio de fazer uma refeição com divisões entre entrada, prato principal, café e sobremesa. Não vamos tão afoitos ao prato principal. A gente se sente satisfeito mais cedo. E permanece satisfeito por mais tempo.
Eu já me sentia presenteada com esse passeio, mas ainda havia mais. Fomos a uma das casas de Pablo Neruda, chamada “La cascona”. Neruda teve três casas no Chile. La cascona foi construída para uma amante. Perguntei a Antonio o que significava cascona e ele me respondeu gesticulando em volta da cabeça: é uma mulher bem descabelada, assim... Pela auto identificação, obrigada. Por favor, não ria de mim nessa hora.



Na entrada da biblioteca, o espirituoso Neruda deu um ótimo exemplo.

Bem, os chilenos tem um jeito peculiar e divertido de morar. Eles aproveitam os terrenos acidentados para construir cômodos em diferentes planos, intercalados, às vezes, por jardins com mais frutas do que flores. Os cômodos tem o pé direito baixo e são relativamente pequenos, geralmente conectados por escadas simples, como se estivessem inacabadas ou fossem sobras da obra, sei lá. La cascona foi construída com ares de navio. Uma casa incrível!
Ainda caminhamos bastante até encontrar uma casa de câmbio. Antônio espirrava muito. Eu não consegui aprender a falar espirro em espanhol. Que palavra difícil, moço! Mas com um espirro que ele deu, achei uma moeda de um centavo de peso chileno.
- Não serve para nada, lamentou.
- Serve para a memória, respondi com um sorriso.
Chegamos em casa bem cansados e eu quis dormir um pouco. O carnaval intercultural estava a todo vapor, mas eu apaguei geral. Acordei às 9 da noite e o sol ainda se preparava para partir. Amei viver um dia tão longo! Privilégios de quem vive abaixo do trópico de capricórnio.


 Na manhã de 15 de dezembro, Antônio me permitiu acompanha-lo em seu trabalho de diretor de cinema, mas tinha a condição de colaborar. Claro que eu fui, feliz e saltitante, realizar o still, o registro fotográfico do processo de filmagem. Tomamos um ônibus em frente ao prédio e saltamos na ponte do rio Mapocho. Descemos para o metrô em pleno horário de pico. Perdemos 10 trens por conta de “violência”, como disse Antônio, das pessoas para embarcar nesse horário. Brabo mesmo, meu povo! E acho que ele estava tentando ser educado na minha presença. Em todo caso, uma cena me chocou e fez rir ao mesmo tempo. O segurança do metrô, que afasta da faixa amarela as pessoas que querem embarcar, arrancou um homem de dentro de um trem, puxando-o pelo braço com toda força. Algumas pessoas riram e eu perguntei a Antônio o que o rapaz tinha feito pra merecer aquilo. Ele só queria sair. E saiu agradecido ao segurança.
Trocamos de trem várias vezes e eu disse a Antônio que sem ele eu estaria completamente perdida. O danadinho respondeu: estaria fodida!
Antônio me explicou que no metrô há dois tipos de pessoa: os apurados e os atontados. Os apurados são os atrasados e espertos. Atontados são os mais gentis ou distraídos mesmo. Naquela ocasião, estávamos muito apurados. Mas tivemos a sorte de pegar um trem que chegou vazio, sem necessidade de violência para embarcar. A verdade é que eu amei o metrô! Em cada estação havia uma obra de arte diferente e eu até me perdi algumas vezes de propósito só para conferir uma obra a mais... 

Estação Cal y Canto ( ao lado da ponte sobre o rio Mapocho)

              Estação Los Heroes

      Estação Quinta Normal

Saindo do metrô, fomos à casa de Ricardo, produtor do projeto do filme. Lá havia um cachorro carinhoso, um café e um aviso bem grande na porta: “Não se vende. Juntos, protegemos nosso bairro”. Fiquei fã! Seguimos de carro até Pinalolén, uma comunidade ecológica que fica aos pés de um dos cerros mais bonitos de Santiago, aquele que tem cor de caramelo e que esqueci o nome. A locação era o Teatro Camino, todo erguido em bioconstrução. Cabra de história e coragem o Héctor Noguera... Deu vontade de morar lá!






O filme se propunha a registrar o processo de montagem de um espetáculo de teatro a partir de duas oficinas: uma conduzida por um professor Russo, o Serguei Filipov, e a outra com o chileno Héctor. O resultado seria uma homenagem aos 200 anos de nascimento do poeta Mikhail Lermontov, apresentado no Centro de Ciência e Cultura Russa de Santiago. Pois é, o Chile e a Rússia são próximos. Junte as pontas do mapa mundi e você vai ver...
Almoçamos por volta das 14h. Comi o famoso pastel de choclo, um prato bem típico do Chile. A garçonete sofreu pra me explicar o que era choclo. Fez até um desenho, mas só entendi quando alguém gritou de outra mesa: é mirro! Bem, depois de contar até cinco, entendi que era milho. Ufa! Tomei sopa de cogumelos como entrada e papei todo o pastel de milho, que em verdade, é uma espécie de tortinha montada em uma cumbuca de barro: uma camada de carne moída, outra de frango desfiada e uma pasta de milho por cima, beeeeem quente. Eu não gosto de carnes, só de frutos do mar, mas fora de casa a gente não escolhe.
Então Ricardo nos deixou em frente a outro parque. Antônio deitou na grama e dormiu por uns minutinhos. Fui correndo pro columpio: uma gangorra. Havia muitas crianças brincando no parque. Aliás, há muitas crianças em Santiago. Há muitos casais apaixonados por toda parte, principalmente nos parques, que também são muitos na cidade. Faz lembrar do filme Viagem a Milão, de Rosselini. A protagonista chama atenção para o número de crianças e pessoas bonitas em Milão e a acompanhante afirma que isso indica a qualidade de vida do lugar.


Tomamos um ônibus para o centro e saltamos no cerro Santa Lucía. Absurdamente lindo! Assim como na base do cerro San Cristoban, havia muitos traços medievais no cerro Santa Lucía. Era como um grande castelo aberto, mas com a forma de uma grande embarcação. A vista da cidade é linda, especialmente porque dali nós estávamos “dentro” da cidade, exatamente no centro dela. Bastava girar e ver a cidade acontecendo para todos os lados. Sem falar que, para uma metrópole, havia até um bom equilíbrio entre concreto e natureza, com grande destaque para a cordilheira, toda vigorosa e imponente.

Com Antônio e o anjinho da fonte das moedas e desejos. 

O mirante do cerro


 Eu, a cidade e a cordilheira dos Andes sem neve

             Descemos e vimos um canhão amarrado por arames a um poste. Chamei atenção de Antônio para aquilo, ao que me respondeu: é para que não vá para a guerra! Como é bom conviver com quem enxerga a vida com poesia... Ao final, mergulhamos as mãos na fonte de Netuno, demos mal exemplo para as crianças ao redor e seguimos para o centro russo



Trabalhamos no filme até tarde. Uma delícia trabalhar entre amigos. Já era mais de 22:30h e Antônio estava cheio de energia: me sinto feliz em fazer o que gosto, com pessoas que gosto!
A passagem pelo Chile foi intensa. Fui a Valparaíso e Concón. Contarei isso em outro post. Mas o que fechou a minha história nessas férias em Santiago foi o Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Uma das experiências mais cruas e impactantes da minha vida. Senti uma vergonha profunda, além de uma grande revolta, dos militares que procederam a golpes políticos pelo mundo. Temos que nos lembrar desses acontecimentos sempre, por mais que nos rasgue a carne e nos seque a garganta. Antônio, sempre sábio, me consolou: estão todos mortos, sim? São outros tempos...
  
 Plaza de armas


 A árvore de Natal mais linda da minha vida todinha

Santuário do Cristo pobre. Aí já nem sei como traduzir essa palavra. Sem graça...



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Primeiras palavras sobre o mochilão

Certa vez, fiz uma viagem que eu desejava há muuuito tempo. Mas trabalhei sete vezes mais do que o planejado. Como sempre, consegui passear, mas ficou aquele gostinho de fazer uma viagem inteira só a passeio, já que eu estava há muitos anos sem férias de verdade. Pensei: posso voltar a Rio Branco e esticar até Machu Picchu. Depois pensei um pouco mais... Eu queria ir à Bolívia também. Então eu vi as fotos da filha de uma amiga mochilando pela Europa. E ouvi histórias de mochilagem com a super amiga com quem tenho a honra de dividir um apê. Falei com vó e, com o surpreendente apoio e respeito dela, comprei uma passagem para La Paz. E tinha uma conexão em Santiago. Melhor impossível! Ao menos até aqui.

Eu acho que nunca entrei na sala de aula tão radiante na vida como na manhã do dia seguinte. Eu me sentia a pessoa mais corajosa e cheia de energia do mundo. E a mais indecisa também, afinal, valia a pena conhecer o Chile, ainda mais com o tanto de amigos que eu tenho por lá... Como boa geminiana, a dúvida me corroeu até o último minuto. Eu achava que, aos 32 anos, eu não teria forças para curtir uma viagem tão longa de busão. Mas se não fosse aos 32, seria quando mesmo? Como eu dizia, a dúvida me corroeu até o último minuto, mesmo, pra valer. Acordei em Santiago e olhei para o ticket. Olhei para o relógio, olhei pela janela. Então decidi ficar lá. Era pra ser só 13 horas, uma noite e uma manhã, o tempo de uma conexão, mas eu fiquei uma semana inteira na cidade mais romântica, ecológica e saudável que conheço. Foi muito difícil desapegar de Santiago. Prometo contar mais sobre isso em outro post. Aqui vão só as primeiras emoções de viajar só.

Para começo de conversa, eu não acreditava que eu fosse capaz de me divertir e “administrar” uma viagem tão longa, principalmente porque eu tenho esses revezes típicos de uma boa vata. Eu não queria reservar hospedagem antes de partir porque eu não tinha a menor ideia de quanto tempo eu ia querer passar em cada cidade. Eu só sabia que não queria ficar mais do que doze horas em um ônibus. Então eu escolhi, minimamente, as cidades que queria conhecer. Nada de metrópole, mas também nada que não tivesse história para contar. Porque muito mais vive o homem de suas histórias do que de pão ou coisa do tipo.

Era verão, mas em cidades de geografia montanhosa eu não tinha garantias de clima quente ou frio. Levei as minhas blusas mais velhas, minha calça jeans mais confortável, uma calça de esporte, daquelas folgadinhas, uns shortinhos e algumas novidades (leves, compactas, novas e fáceis de secar) para o frio: uma calça térmica que funciona como legging, um fleece, uma blusa de manga longa, uma segunda pele, ou seja, duas mudas de roupa apenas. Quem leva muita coisa não traz nada, porque não há coluna sedentária que aguente!

Pelo caminho, muitas pessoas perguntavam “Estás solita?”, “Por qué estás solita?”, “No tienes miedo de viajar solita?”, “Para que te vas a viajar sola, para se perder en el mundo?”. Eu sempre respondia com toda a serenidade do mundo: viajo sola porque soy solita, pero no me pierdo, tiengo Diós a guiarme... tiengo más miedo que quedarme solita em mi casa em mis vacaciones... Não sei se pareci grosseira, mas isso saía de meu coração, do meio das verdades mais profundas e preciosas que carrego comigo.

E, em verdade, foi até um pouco difícil ficar sozinha nessa viagem. Há muitas pessoas nessa rota. A maioria prefere descer a América do Sul, mas sempre há algumas a subir. E quer saber, não importa até onde a rota delas coincide com a que traçamos. Qualquer bom encontro já é um alimento para alma. Mas não se vive bons encontros do nada, em qualquer esquina ou mesa de restaurante de rodoviária. É preciso vibrar na nossa frequência mais sincera e feliz para atrair as pessoas que podem nos fazer crescer. Me abri para fazer amigos. Sentei em mesa de quem eu tinha acabado de ver na vida. Proseei com gente que estava ao meu lado no ônibus por horas seguidas: adultos, crianças, brasileiros até! Mesmo com toda timidez e dificuldade de compartilhar com muitas pessoas ao mesmo tempo, consegui conhecer muitas pessoas. Consegui fazer amigos de bom coração a quem jamais esquecerei. Aprendi coisas que nem imaginava estar na agenda das mudanças necessárias no meu jeito de sentir e (re)agir. 

Percorri cerca de 17.900 km. Se bobear, isso é tanto quanto aquilo que alguns de meus tios caminhoneiros já percorreram na vida! E não, não é preciso coragem para essa parte operacional. Basta comprar um bilhete, entrar no ônibus e você vai acordar em outra cidade. O que carece de boa vontade, pertinácia e cautela é a parte que está além da viagem pelo mundo de pedra, água, ar e vida, afinal, também se viaja no mundo interior. A vida das pessoas que ficam e que passam modifica a nossa vida, sobretudo porque nos faz ter mais humildade, mais capacidade de resolver problemas, mais flexibilidade de visão para inventar e experimentar novas atitudes. Vale destacar isso com todas as cores e post-its do mundo: fora de casa não vale repetir as atitudes que se enraizaram na tal zona de conforto! Fora de casa tem que ser criativo, tem que se permitir usar o tempo de outra maneira – e falamos de outro tempo, o tempo das férias, que é kairós, é lentidão e reflexão; aqui temos tempo para nós e somos tempo para o outro. Ouvir a experiências do outro e beber da fonte de novas ideias que atravessam continentes, oceanos, é um exercício de força e coragem. Sim, é preciso coragem para torcer o nariz para o conforto nosso de cada dia. Fiquei sem banho algumas vezes, mas e daí, se eu vi, ouvi e senti tantas coisas que não me sensibilizariam se eu fizesse tudo sempre igual, tudo sempre certinho?

Viajar é escrever a rotina com outro tipo de lápis. E ter borracha e apontador do vizinho sempre que necessitar. E não necessitar deles em algumas horas também. E ganhar palavras e cores novas de onde nem se imagina. Então eu colori esse mapa para vocês. Ficou com cara de gigante, não foi? Os trechos em vermelho foram percorridos por ar; os azuis, por terra; os marrons, a pé. Se servir de inspiração para você, já serei feliz por hoje!